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sábado, 19 de março de 2011

Campainha

A campainha toca. Ele custa a acreditar, nem lembra quando recebeu visitas, pensa até estar delirando.
Quem seria? Talvez um pedinte, um cobrador, mas estes já não teriam desistido?
Uma balzaquiana do censo? Não, não está assim com tanta sorte. A polícia? Tem andado meio errante, mas crimes não cometeu.
Seria ela? Não, ela não vem mais... até acha que nem tem ninguém, está vendo coisas. Mas o segundo toque dá a certeza: alguém chama.
Claro é ela, aquela que povoa suas noites. Agora está ali para materializar seus sonhos.
Se arruma depressa, experimenta freneticamente várias roupas, olha várias vezes no espelho, usa o melhor perfume, o coração salta no peito, chegou o dia.
Uma última conferida no perfil e caminha a passos firmes em direção a porta. Ao levar a mão à maçaneta ele para. E se não for ela? Deve ser, algo lhe diz que sim.
Mas e se ela veio depois de tanto tempo o que a trouxe? E se for para dizer não, para desistir. Ele recua, olhando para a porta. O que fazer? Terminar com a dúvida? Abrir a porta e encarar de vez a realidade, ou ficar ali esperando ela ir embora, e poder continuar a ter ela tal como sonha...em seus sonhos.
A passos lentos ele caminha, afasta-se dali,, nem se importa com os toques da campainha

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Borboleta

Na curva do rio que corre preguiçosamente entre os campos tem uma figueira. Na sombra desta um homem sentado com os olhos fincados na solidão, observa como a água acaricia as pedras, e como as avencas seguem sua teimosia de manter verde aquela barranca, cicatrizada pela erosão.
A transparência da água permite apreciar o bailado dos lambaris, e a calmaria forma sobre o poço uma tela de cristal líquido, onde ele assiste a um filme em flash back. O roteiro trata da história de um menino órfão que cresce livre sem alambrados a balizar suas idéias, e no desamparo vive batendo cabeça daqui e dali. E, neste cair e levantar constante vai tateando um rumo a seguir, em meio a complexos e preconceitos que lhe acompanham em sua adolescência.
Mas apesar do prognóstico sombrio, no meio de tantos revezes, ele meio que se salva mantendo-se aquém da linha tênue que separa o bem do mal. Consegue seguir em frente quando preconizavam que não iria longe, não caindo nas tentações próprias de quem entra no mundo dos adultos sem um costado, e consegue assim ir falquejando-se como um cidadão até que de boa marca.
E, além do mais o menino agora homem conseguiu transformar em amor todas aquelas mágoas que lhe instigaram até ali. Com um coração cheio de amor ele se entrega a cada vez que se apaixona sem reservas, sem receios, sem limites. E como não consegue equilibrar a razão com a emoção ao se entregar de corpo e alma novamente em sua vida vem o sofrimento. Pois para compensar carências de outrora, como um jogador novato ele apostara todas suas fichas.
Na amargura de um viver vazio, a dor, o preconceito e a mágoa são seus parceiros. Hoje ele segue se equilibrando como se estivesse caminhando no arame, e apesar de ter mantido seu caráter e uma postura de homem digno, ele se pergunta: para que? Ao mirar aquele espelho d’água ele só vê a figura de um homem sentado na sombra da figueira como uma figura inerte lá no fundo...
Eis que de repente em sua perna pousa uma borboleta e ele volta-se para ver aquela figura inquieta como a querer dizer-lhe algo. Ele sente uma lágrima rolar por sua face, e até ensaia um júbilo, mas desaprendeu de sorrir.
Mas agora o homem sentado na sombra da figueira tem os olhos fincados num fio de esperança, pois como ali naquele ponto o rio fêz uma curva e mudou sua trajetória, quem sabe ele consiga seguir aquela borboleta. Não importando para onde ela o leve, mas certamente novos rumos lhe trarão o que quase lhe falta: viver. Seja para amar seja para sofrer, mas viver!

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Mulher perfeita

Depois de fazer uma crônica brincando com o que seria a mulher ideal,( http://bit.ly/9oSS8i ) me lembrei de uma antiga história de dois amigos que numa certa tarde conversavam sobre a vida e o amor.
O amigo perguntou a Nasrudim por que ele ainda não tinha casado, aí ele respondeu que passou toda sua juventude a procurar a mulher perfeita. Disse que no Cairo conhecera uma moça muito linda e inteligente, com olhos negros, mas que não era muito cortês. Em Bagdá, conheceu uma mulher de alma generosa e amiga, mas não tinham muitos interesses em comum. Disse que muitas mulheres haviam passado por sua vida, mas que em cada uma sempre faltava algo, ou tinha alguma coisa demais.
Até que um dia, disse ao amigo que a encontrou. Era linda, inteligente, generosa e bem-educada. Disse que tinham muito em comum e que era na verdade a mulher perfeita.
E então o amigo perguntou: Mas o que aconteceu que ele não se casou com ela?
Nasrudim coçou a cabeça e pensativo respondeu: Infelizmente parece que ela estava à procura do homem perfeito.

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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Perfídia

Um homem que trai carrega em sua consciência o peso do remorso. Ao se voltar para outras, às vezes até dando mais atenção a quem não merece em certos momentos a culpa lhe cai sobre os ombros.
Até um simples gesto de carinho ele deixa de dar, àquela que não lhe pede muito, apenas um reconhecimento por seu valor.
Eu que iludido por certas cores e aromas enveredei-me pelos caminhos da traição. Na ânsia de experimentar coisas novas e sensações diferentes, dediquei meus carinhos e afagos a umas em detrimento de outra.
Mas quando cuidava das novas escolhidas, ao lembrar dela ficava me condenando por estas atitudes infiéis.
Cada vez que olhava pra ela sentia sua tristeza por saber estar sendo deixada de lado. Eu impotente pela ilusão de amores fugazes, amarrado por paixões céleres, sofria e adiava uma decisão que devia tomar logo.
Pois ontem depois de sonhar com ela dizendo que me sentia distante e que minha falta ia fazer com que ela um dia deixasse de viver, finalmente tomei uma decisão.
Não que eu tenha resolvido me dedicar só pra ela até porque as outras tem me mostrado visões que antes eu não tinha visto e proporcionaram-me alegrias demudadas.
Munido de coragem fui chegando com cuidado e aos poucos me desculpando pelo descaso com que a tinha deixado.
Carinhosamente para não machucar ou piorar ainda mais sua situação, fui removendo aquele mal que tanto a sufocava e vi que se ela resistiu até aqui foi por sua coragem e perseverança.
Depois de algum tempo ela sentiu-se livre, e eu mais ainda, pois a cada folha da erva daninha que eu removia, eu sentia minha alma mais leve.
Depois de terminar senti uma sensação gostosa e gratificante causada pelo prazer de ter cumprido com meu dever.
Aquela plantinha de orégano hoje amanheceu com um aspecto maravilhoso e ao regá-la prometi a mim mesmo que embora gostando da hortelã, da sálvia, da mangerona e até da pimenta, ela ia ter daqui pra frente no mínimo a mesma dedicação dada as outras.

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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Vegetal

Num dia destes em que se procura algo para pensar, que desvie os pensamentos dos infortúnios que nos cercam, estava eu olhando o jardim. Imaginei qual daquelas plantas alí se parecia comigo.
Olhei os pés de alegria de jardim com suas flores vermelhas, algumas sem folhas, pois as formigas as andaram levando, mas não me identifiquei. Nem com e nem sem folhas. Na fileira de marias sem vergonha, judiadas pelo calor e um pouco desanimadas, não vi nada em comum a não ser o semblante acabrunhado.
Ao ver a romãzeira, esta tranqüila, pois vive mais de cem anos me deu uma certa angústia. Lembrei que me vou um dia e ela vai ficar dando seus frutos. Mas este sentimento egoísta me envergonhou.
As uvas miúdas, mas muito doces que reparto com o Pank a cada vez que colho com certeza não refletem meu ser. Assim como a palmeira alta e esbelta. Aliás, nunca vou parecer uma palmeira, ainda mais esbelta.
Olho a pitangueira e viajo aos tempos de criança, quando morando no interior de Itati, passava as tardes colhendo seus frutos e tomando banhos de sanga. Sem dúvida me encontrei nesta planta, como um marco de meu passado, mas hoje em dia não me identificaria nela. Bananeira? Não, nem com e nem sem cacho.
Vi o pé de cidró e notei que vários de seus galhos, aqueles que ficam para o lado da rua estão quebrados por quem quer levar seu chá pra casa.
Olhando o orégano observei que este também passa por um revés: uma touceira de erva daninha cresceu junto a ele e o sufoca quase o escondendo.
Aquelas cicatrizes do cidró com seus galhos quebrados parecem feridas numa alma dolorida e sofredora. Aquelas mãos que avançam pela tela para levar sua folhas me parecem como monstros a atormentar com seus tentáculos.
O sufoco pelo qual passa o orégano, mal conseguindo respirar sob a inclemência do mato que lhe cobre, se parece com uma vida, a sofrer com pressões e muitas vezes sem uma luz para clarear o caminho.
Uma alma ferida, cicatrizes, sonhos partidos, galhos quebrados, feridas expostas, um corpo cansado e oprimido parecendo não conseguir levar o peso que tem sobre seus ombros.
Mas mesmo nesta situação o cidró continua a crescer agora mais para o outro lado onde quem passa na rua não alcance seus galhos, e mesmo tendo um lado ferido não desiste de brindar-me com suas folhas. E, numa luta exemplar para cada galho que foi quebrado nascem vários brotos novos.
O orégano também em sua bendita teimosia de continuar existindo conseguiu soltar alguns raminhos por entre a touceira de mato, com seu aroma inconfundível.
Minha luta tem sido por vezes desigual. E nestas duas plantas vi semelhanças com o que tenho vivenciado. Porém não quero me espelhar nelas somente em seus sofrimentos. Quero que seu espírito de luta continue me contagiando.
Portanto quero me ver como o cidró que para cada galho que lhe quebram nasce outro que o deixa mais forte.
E no orégano que quando tudo parecia perdido conseguiu em meio às trevas um estreito caminho para crescer e alcançar a luz do sol.
Continuei andando pelo jardim, olhando a hortelã, a salsa, a cebolinha, a alfazema, o manjericão...
Acho que me inspirei, esta noite merece uma bela... Pizza.

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domingo, 31 de janeiro de 2010

Noite de inverno

O vermelho com tons de rubi do vinho na taça sobre a mesa, refletia as chamas da lareira que com seus estalos ao queimar concorria com o som da música instrumental de um piano que tocava uma trilha inspiradora.
Não fosse o balançar dos galhos das árvores que ele vislumbrava pela janela, castigados pelo minuano, ali naquele ambiente nem se notaria, ser esta uma noite fria de inverno.
Quanta emoção uma noite assim reserva, quantos pensamentos acompanham aquele movimento das copas das árvores, num ir e vir teimoso contra aquele soprar instigante.
Na penumbra de um luar de crescente, vê a estrada e percorre-a até onde seu olhar alcança.
Muitas lembranças passeiam com ele naquele caminho, que se não fosse a geada de outro dia estaria com o capim crescido, uma vez que pouco se transita por ali.
Acorda de seus devaneios e de súbito pensa no momento que vive.
Olha para a mesa posta, uma angústia invade seu peito e tira-lhe a vontade de sentar ali.
Volta-se novamente para a vidraça e olhando em seu vulto refletido pergunta: Por que não duas taças?
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domingo, 24 de janeiro de 2010

Obrigado

Minha vida era como uma embarcação navegando em águas turvas, com constantes ameaças de tempestades. Um dia ela veio. E, com toda a violência que fez com que aquele barco que não era muito forte começasse a se despedaçar. Segurava-me no timão ele se rompeu, segurei no mastro ele se partiu. Numa tábua que lascava do chão do convés agarrei firmemente, e foi minha legítima tábua da salvação.
Segurando nela eu consegui juntar forças e esperar pelo pior. Adormeci olhando pro céu me deixando levar, pois pra quem não sabe aonde ir, qualquer caminho serve. Em meio as trevas começaram e cintilar pontos de luz, que foram crescendo e me iluminaram novamente. E, no dia seguinte naquelas águas tão cálidas que mais pareciam espelhos a refletir o céu azul, senti-me novamente seguro. Nesta calmaria (aparente) ao buscar novos portos e novas rotas vi acordarem em mim certos gostos então adormecidos. Um destes é ir relatando o que vejo nos caminhos da vida. E se hoje não navego mais em águas tão turbulentas, ou se ao ver uma tempestade já não me apavoro tanto é porque de certa forma consigo repartir meus medos e meus anseios ao escrever sobre eles. Nestas escritas relato passagens, acontecimentos e vivências. Às vezes de uma forma dura e sofrida, noutras com sarcasmo e ironia, e em algumas delas um pouco de humor, pois ninguém é de ferro nem foi feito pra sofrer sempre. Sem contar as dores de amor, mas crente que um dia vai bater forte este coração.
Esta variação é um reflexo de cada momento vivido, numa jornada de vitórias e de derrotas, de alegrias e de tristezas, mas sempre de luta e de esperança no amanhã.
Obrigado a todos que me ajudaram e incentivaram e a você que muito me honra com sua visita.

sjacoby@terra.com.br


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domingo, 10 de janeiro de 2010

Long Neck a 10 paus

Para os doentes de amor, o remédio pode estar na vida noturna, e nas noites de insônia podemos sair, e procurar emoções diferentes. Poetas buscam neste tema inspiração para seus versos. Numa noite destas um homem sai a buscar algo que lhe faltava: calor para seu coração carente. Numa ronda pela cidade, passou na igreja, rezou e em silêncio pediu proteção.
Numa casa com um neon sugestivo, e com luzes vermelhas piscantes entrou meio desconfiado. O porteiro que mais parecia um armário chamou-o de doutor e desejou bom divertimento.
Ao chegar ao salão, numa penumbra multicor, procurou uma mesa com uma boa vista para a pista de dança. Mal ele senta e uma senhorita se aproximou. Deu-lhe dois beijos no rosto e ele sente seu perfume forte e marcante, bem como sente que seu batom lhe marcou. Era loira, com seios fartos que pareciam querer saltar pelo decote, e apesar do lusco-fusco ele percebe que estava sem sutiã. Ela conta que tinha colocado silicone nos seios, e disse que tinha uma tatuagem num lugar muito discreto. Enquanto tomava uma cerveja, ela contou que estava ali por falta de opção, e que só com este trabalho conseguia dar conta das despesas com uma filha e pagar a faculdade. Que em dois anos se formaria e sonhava abandonar aquela vida. Sandra, como se chamava disse que ele era um homem muito interessante e que era fácil se apaixonar e que se um dia ela encontrasse alguém como ele abandonaria sua “profissão” na mesma hora.
Ele pensa, o que é o cara ser bacana, olha só: amor a primeira vista...
Para ganhar tempo e ficar mais à vontade mente pra ela que ia esperar um amigo que viria mais tarde e que antes dele chegar ia só beber um pouco. Ela disse então que ia dar uma volta, beija-o no pescoço e disse que o queria muito.
Ele fica ouvindo as músicas: “você não vale nada mais eu gosto de você... boemia, aqui me tens de regresso... levei um pé na bunda...agora saio na sexta e só volto na segunda... besame, besame mucho...” Olha para um sofá, do outro lado da sala e vê a Sandra quase sentada no colo de outro. Por pouco não se suicida ali mesmo com tamanha “traição”.
Vai ao banheiro e na volta nota uns conhecidos que ficam meio sem jeito ao lhe ver, faz de conta que não reparou neles e volta pra sua mesa.
Notou que aumentou o movimento na casa e que um grupo de mulheres novas acabou de chegar. A Marisa com seus cabelos negros cacheados e um corpo de violão se apresenta. Em vez de beijinhos abraça-o e sussurra algo em seu ouvido que deixa ele todo arrepiado. Usa um vestidinho preto, tipo tomara que caia que fica toda hora ajeitando. Trás uma cerveja e senta ao seu lado como se fosse sua namorada: segura pela mão e alisa seus cabelos... Seu vestido curto sobe e mostra suas pernas bem torneadas. Uma mulher muito bonita, e com um sorriso encantador.
Diz que tem 19 anos e que está na cidade faz duas semanas. Não estuda, mas precisa mandar dinheiro pra mãe doente que mora na fronteira.
Convida-o pra ir para o “reservado”, onde podem ficar mais à vontade. Insinua um movimento esfregando o corpo e ele pede outra cerveja para que com sua saída, recoloque as idéias no lugar...Ao levantar deixa cair a bolsa (de propósito) e ao juntar quase lhe cega com a visão de seu traseiro.
Quando ela volta, está recomposto, e pergunta como funciona o reservado. Conta-lhe que pra ir lá tem de comprar um champanhe, e que podem trocar carícias mais íntimas. Só não podem fazer sexo. Pensa ser uma ante-sala do paraíso. Mas acha também um desperdício, pois de que adianta entrar lá se não tem como seguir em frente? Pergunta pra Marisa, se for pra ir direto ao programa como seria, e ela contou que ele pagaria as despesas da “moça”, do apartamento, do preservativo e de um drinque pra tomar no quarto. Com sexo normal era uma tarifa, mas outros serviços seriam cobrados à parte. Começou a brochar ao ver quanto custaria aquela sessão toda. E depois mesmo ali naquele lugar imaginava ele na sua ingenuidade encontrar algo mais romântico... Disse pra ela que ia esperar um pouco, que podia ficar à vontade que ia pensar.
Ela saiu dançando sozinha, e no meio da pista abraçou a coluna tentando subir na mesma,imitando a performance que uma dançarina fazia numa novela. Ainda lhe provocou várias vezes com um olhar malicioso,mas logo depois alguém saiu com ela nos braços para um canto da sala.
Apesar de ser tão, ou mais atraente e “interessante” que a Sandra, perder a Marisa não o deixou abalado.
Olha para os casais se amassando e se beijando, e a fumaça dos cigarros formando figuras na luz negra.
A casa está cheia e agora é a Verônica que vem com tudo pra cima dele: Chama-o de amor, tenta sentar no seu colo, e quase esmaga-o com seus quilos a mais. Seu cabelo vermelho até que é bonito, mas nem mesmo a penumbra disfarça que sua míni-saia é um número menor a espremer-lhe a bunda, e uns pneuzinhos de bom tamanho salientam-se sob sua blusa. Já meio bêbado, sente náusea com seu cheiro de cigarro quando ela morde-o no pescoço.
Pediu que lhe trouxesse uma cerveja, mesmo não tendo terminado a última, numa tentativa de se livrar do perigo que rondava. Fica rindo da sua desgraça, esnobou a siliconada, esnobou o galeto, agora bem feito: sobrou a baranga. Mal ela chega, ele diz que recebeu um telefonema urgente, que tem de ir, mas promete voltar outro dia. Ela ameaça sentar e ele resolve sair sem tomar a última cerveja. Ofereçe a ela e deseja bom proveito.

Vai ao balcão paga a conta, e sai de fininho. Dá uma olhada pra mesa e a Verônica faz um coração com gestos e lhe joga um beijinho....

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terça-feira, 29 de dezembro de 2009

No ENEM/2009

Neste segundo dia de provas, cheguei meia hora antes. Hoje já me sinto mais à vontade pois ontem, em certo momento, comecei a me sentir como um estranho, e até pensei: o que eu estou fazendo aqui.
Enquanto aguardo na sala, sofro com o forte calor e o suor molha minha camisa. Vejo mais pra frente um colega, com manga comprida e casaco de couro, será que não está tão quente assim e minha gripe é que me desregulou a percepção da temperatura? Gripe esta que ontem me incomodou e me fez cochilar várias vezes durante a prova, e que continua, minha cabeça dói e a coriza incomoda bastante. Espero que hoje os analgésicos dêem conta do recado e eu agüente as cinco horas de “sabatina”.
Como hoje é a final do campeonato brasileiro, alguns candidatos vieram vestindo as cores de seus clubes. Entre uma do São Paulo e outra do Flamengo vejo mais camisetas do Grêmio que do Inter. Parece que os colorados jogaram a toalha mesmo, mas espero terminar até as dezessete horas para ver o jogo.
Sentei-me no mesmo lugar de ontem. Noto que outros me olham e vejo que ficam intrigados ao me ver escrevendo, talvez pensem que estou “treinando” pra redação. Penso no meu blog e lembro que voltei a escrever sobre as formigas no twitter. Gosto do assunto apesar do incômodo que elas me causam.
No almoço comi saladas e carne para evitar sonolências, mas faltam vinte minutos e estou cochilando. Trouxe uma garrafa de água pra matar a sede e para os remédios que com certeza vou precisar.
Sinto certa tensão nas outras pessoas, talvez pela necessidade de ir bem na prova, até porque este ano mais faculdades estão aceitando as notas do ENEM para ingresso de alunos. Nervosismo que não tenho pois ainda não vou concluir o ensino médio este ano. Estou fazendo mais por curiosidade, e, portanto de sangue doce, mas que dá um friozinho na barriga, isto sim.
A sala é abafada e está quente mesmo, e, a despeito do homem com casaco de couro, a maior parte se veste com roupas curtas. Um rapaz gordo veste uma bermuda estranha que quase toca o tênis. Fico me perguntando se é para vestir uma bermuda que vai até os pés porque não pôr logo uma calça? Mas ele parece feliz, e se aquela roupa o deixa assim, quem sabe amanhã não estarei tambem com uma.
Algumas mulheres que, aliás, são a maioria, mostram suas pernas com shorts e míni saias. Umas conversam com as outras e eu fico quieto tentando decifrar o que falam. Uma moça ruiva de uns dezoito anos, não para de sorrir ao meu lado, parecendo querer mostrar seu novo aparelho nos dentes. No outro lado uma senhora de uns trinta anos, morena e com cabelos armados num coque comenta estar cansada pois fez faxinas antes de vir. Com certeza ela está fazendo esta prova em busca de algo melhor e novas condições de vida.
Uma moça loira com cabelos encaracolados que ontem sentou na minha frente, hoje está no mesmo lugar. Notei que ela veio com a mesma roupa de ontem, inclusive a calcinha rosa com florzinhas que fica aparecendo entre o cinto do jeans e a blusa que sobe quando ela se movimenta. Bom, pode ser que ela tenha duas iguais.
Dou uma olhada panorâmica e vejo que sou o mais experiente da turma. Afora umas quatro pessoas na faixa dos trinta, os outros todos têm entre dezesseis e vinte e dois anos.
Faltam dez minutos, vou ao banheiro e quando volto a sala está cheia. Agora noto que as camisas do Inter são maioria, acho um bom sinal.
A monitora entra e anuncia o início da prova, agora tudo que vier será lucro, só espero não ficar na lanterna...

(Depois de fazer a redação, a gripe apertou e cochilei várias vezes. Com febre e dores pelo corpo não tive condições de terminar. Marquei muitas questões aleatoriamente e saí no meio da prova. Mas tive uma boa média inclusive que me daria acesso a algumas universidades. Ano que vem vamos de novo.)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Berlinda

Acomodado num tronco de cinamomo caído que agora ele faz de banco, contempla o mato crescido nas cercanias do rancho. A última vez que deu um trato no jardim, esperanças ainda tinha de se ver novamente, com a volta de quem se foi. Cuidava com capricho do terreiro, do quintal, enfim da casa inteira, pois sabia que se ela chegasse nem que fosse pra buscar um esquecido, ia gostar de ver. E, quem sabe até resolvesse ficar.
Mas qual que, o tempo se passou e só ficaram as lembranças a perseguir-lhe por onde anda, e pra onde leva seus pensamentos.
Nesta manhã quente de verão sentado mateando, o chimarrão amarga como nunca. Coisas que antes abominava agora se tornaram corriqueiras. Entregou-se a vícios do fumo e do trago, numa fuga para aplacar sua dor. Às vezes se vê chorando baixinho e lágrimas rolam pelos vincos de sua face marcada pelo sofrimento. Sua cara, aliás, nem de longe se parece a mesma, barba por fazer e as melenas por cortar pra mais de quatro luas.
Pensou várias vezes em ir à cidade, cuidar de umas coisas e um pouco de si, mas fica relutando e adiando, pois se sente às vezes um pária sendo julgado, ou vê os outros com pena de sua desgraça. Ele antes alegre e crente na vida agora olha mais pro chão do que pra frente. Quando se encoraja, e pensa em tomar uma decisão anda a passos curtos e seu lampejo de coragem se esvai em seguida.
Até as cigarras com sua estridência típica da estação, que antes ele gostava de ouvir, agora soam como um coro de algozes zombando sua sina.
Sorvendo um mate misturado com lágrimas, eis que lhe tenta a idéia de parar de sofrer pela via mais torta. Mas ele se assusta de si mesmo.
Está certo que se não mudar sua atitude não irá longe, mas covarde não é, e ademais, apesar de tantas provações ainda crê na divindade. De pronto se apruma, discursando aos arbustos crescidos que encobrem a vista da casa. Não sabe ainda quanto viverá, mas se cair vai ser lutando e mais: Promete a si mesmo que não abdicará dos sonhos, de um dia, mostrar que podem judiar de seu corpo, podem maltratar sua alma, mas não vergarão seu caráter.
E até acredita um dia destes, quem sabe voltar a sorrir.

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domingo, 13 de dezembro de 2009

Mulher ideal

Resolvi me casar e então saí a procurar a mulher ideal. Mas como ela seria? Uma Amélia, aquela que não tinha a menor vaidade? Ficava feliz até em não ter o que comer? Existem mesmo estas mulheres?
Penso que teria de ser bonita, mas aí me contam que as modelos são burras. Pronto, já não teria o que conversar. E depois mulher muito bonita cria uma sensação de insegurança. Os outros a querem muito e um dia alguém pode levar.
Mas então quem sabe uma feia? Sim feia, mas inteligente, culta, que leia e que fale sobre vários assuntos. Bom, mas e ao acordar de manhã? Ou pior no meio da madrugada, e olhar pro lado e se deparar com aquele ser abominável roncando?
Quem sabe uma que saiba cozinhar? Teria comida gostosa e cada refeição seria um deleite. Mas e o excesso de peso? O colesterol? Sem falar que a sonolência depois de cada refeição, anularia a possibilidade de outras atividades.
Então uma que não saiba nem fritar um ovo? Esta iria me ter como herói, pois seria dependente. Mas e se não souber cozinhar, mas for esperta? Cada dia pediria uma comida diferente, ia querer comer fora e tal. Sei não, complicou.
Quem sabe uma gorda? Alegre e sorridente, bom humor sempre teria. Mas e se ela um dia inventasse uma posição invertida? Socorro!
Uma magra então. Até pode ser, mas, mulher sem ter onde pegar fica esquisito. E ainda mais: depois de cada refeição iria desconfiar que ela estivesse grávida.
Uma mulher alta seria interessante, muito bacana e tal. Mas e para alcançar certas partes na hora do carinho? Uma baixinha seria ideal, mas haveria um perigo constante: viveria perdendo ela em algum lugar da casa.
Morena ou loira? Relaxada ou caprichosa? Gremista ou colorada? Conservadora ou reacionária? Cabeluda ou depilada? Gaudéria ou sertaneja? Caseira ou baladeira? Religiosa ou endiabrada? Muda ou falante? Drogada ou natureba? Educada ou barraqueira? Abstêmia ou cachaceira?
Tantas dúvidas senti que iria acabar pirando, mas como estava decidido resolvi pedir auxílio. Solicitei uma mulher que reunisse as melhores qualidades e que me deixasse satifeito ítem por ítem, com aquela "idealizada" por mim. Depois de alguns dias chegou o agente matrimonial com a "encomenda".

Antes de mostrar-me assim esclareceu:

Encontramos tua "musa"
Conforme solicitação
Não aceitamos devolução
Desta que te convém
Porque se desistisses
Não sei o que faríamos com isso
Pois pra querer este estropício
Não encontraríamos ninguem
Porque não é todo dia
Que um homem se propõe enfim
Casar com alguem assim
E ser cunhado do Frankenstein
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quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Poeira

Um dia destes enquanto mateava solito, comecei a observar que os móveis estavam cobertos de pó. Lembrei ter ouvido falar que o pó que se acumula nos móveis tem camadas distintas. Olhando bem não notei diferença de camadas, mas uma única e bem espessa.
Como estava para receber visitas, e tinha de dar um jeito na casa imaginei se não seria mais interessante aderir a moda de “virar excêntrico”. Sim, aí eu diria a quem reclamasse que aquele era meu novo modo de viver. Que este pó que os ventos trouxeram, só eles é que poderiam levar de volta.
Será que convenceria? Imagino a cara de espanto de todos a pensar que eu pirei de vez. Mas por outro lado, quanto economizaria por ano? Somente o corte dos gastos com a diarista e com produtos de limpeza daria uma economia daquelas. E , eu poderia comprar um bom vinho toda semana.
Sabe que fiquei mesmo tentado, mas achei que não iria colar. Teria de ser mais convincente: não tirar a barba, não cortar o cabelo e as unhas, e até não tomar mais banhos. Mas logo eu que tomo dois banhos por dia?
É, fiquem tranqüilos por enquanto. Até porque sei que não iriam me chamar de excêntrico coisa nenhuma. E sim de relaxado mesmo.
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segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Mímicas esportivas

Nos tempos de guri, aos domingos ia junto com meu pai no armazém que chamávamos de venda. Nestes lugares invariavelmente tinha uma cancha de bochas, onde ele e seus amigos jogavam até escurecer. Meus amigos e eu jogávamos bola de gude ali por perto. Quando parávamos de jogar, íamos ver o jogo dos pais.
Achava muito engraçado quando meu pai jogava uma bocha, e ela não saía com a direção que ele desejava, ou seja o bolim. Aí ele fazia movimentos com o corpo e os braços dando ordens para que a bola tomasse o rumo desejado. Era uma mímica intensa e desesperadora que ele quase caia pros lados na tentativa (inútil) de corrigir a jogada.
Quantas vezes vendo futebol na tv não nos deparamos fazendo o mesmo. Alem de xingar os jogadores, o treinador e o juiz é claro.
Uma menina me contou que nunca mais olha o jogo junto com sua avó, pois era um suplício a cada partida uma vez que ela jogava junto. E não era só xingar o árbitro, dar intruções aos jogadores. Ela chutava a bola, dave passes laterais e até dribles imaginários. Ela me disse que pra ver o jogo com sua vó só se sentar bem longe ou colocar caneleira.
Fiquei imaginando se ela tambem cobrava lateral, escanteios e pensei: tomara que o juiz não marque pênalti contra seu time.
Vai que o adversário bate rasteiro e no canto...
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terça-feira, 20 de outubro de 2009

Insônia

Sempre ouvia falar dela e ficava curioso. Uns diziam poxa que insônia danada, outros ando com uma puta duma insônia. Pensava com meus botões, mas será que não terei o prazer de conhecer esta dita cuja.
Depois de certo tempo tive uns destes reveses que a vida nos trás. E, com isto ao deitar para aquele sono dos justos ele custava a vir. Era tipo um desencontro, eu deitava e o sono se levantava. Até que demorou tanto que certo dia estava eu ainda acordado até madrugada. De repente a senti. Ali estava ela junto comigo, quem eu tanto tinha ansiedade em conhecer. Querida dona Insônia.
Ah então é você, muito prazer (prazer?), aqui estou. Tudo bem que eu estava curioso e aquele encontro foi marcante, mas depois de certo tempo comecei a enjoar. Pois não é que a dita se engraçou comigo e começou a vir todas as noites, justo na hora que eu queria dormir.
Tentei me livrar dela de várias maneiras: livros, rezas, chá de cidreira, saravás, e nada da danada me largar. Então fui ao doutor, e ele após ouvir minhas angústias sonolentas me disse pra ficar tranqüilo. Receitou-me um remédio para tomar meia hora antes de deitar.
Foi um balaço. Já tinha de engolir a tal pílula e ir me ajeitando, pois senão dormia em pé mesmo. E a coisa ia indo assim até que certo dia me bateu um pensamento estranho. Será que não seria covardia usar uma arma química contra aquela pobre criatura indefesa?
Eu, um homem deste tamanho devia lutar de mano a mano. Fiquei com pena da coitada. Mas também quem mandou ela não me deixar dormir. Depois tinha um vício de chegar sem a gente ver, e entrar não sei por onde. Enfim, é um ser esquisito. Disseram-me que a insônia é produtiva culturalmente. Só se for culturalmente, pois na última noite que passei com ela, no outro dia eu estava no bagaço.
Podem me chamar de covarde, mas não vou abrir mão dos meus trunfos medicinais contra ela. Até já inventei uma artimanha: coloco um comprimido no criado mudo e fico negaceando. Se ela chega seguro o comprimido como se fosse engolir e ela foge igual vampiro corre de alho.
Assim tenho vivido, mas confesso que tenho saudades do tempo que a “querida Insônia” era para mim um sonho, que eu desejava tanto realizar e conhecê-la.
Depois também com tantos homens neste mundo, porque logo eu? Já vi que ela é obsessiva e se encambichou mesmo.
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